Viagem a Portugal I — burros, laranjas e aldeias quase vazias
A viagem antes da viagem
Descobrimos por acaso o livro de José Saramago, Viagem a Portugal, na RTP, através da série com o mesmo nome apresentada por Fábio Porchat. A primeira edição do livro foi publicada em 1981, depois de, entre outubro de 1979 e julho de 1980, José Saramago ter percorrido o país a convite do Círculo de Leitores. Gostamos bastante de Saramago, mas desconhecíamos por completo este livro, ficámos curiosos e resolvemos ver o primeiro episódio, no qual Fábio Porchat visita, entre outros locais, Torre de Moncorvo, Amarante e Chaves. Ao ver esse episódio, achámos que seria interessante fazermos também nós uma viagem a Portugal, seguindo os passos de Saramago, 42 anos depois. Entretanto ofereceram-nos o livro, metemos a série em pausa e começámos a tirar notas sobre todos os lugares mencionados e… são muitos! Saramago vai visitando todas as capelinhas que lhe aparecem pelo caminho, e com isso aproveita para conhecer um pouco mais das gentes e das terras por onde passa. Esse é um dos pontos mais curiosos do livro: o interesse e o conhecimento que Saramago, um ateu convicto, demonstra em relação à arte sacra, e como aproveita esse interesse para se conectar àqueles que vai encontrando pelo caminho.
Começar a preparar a viagem e a adicionar todos os pontos no mapa fez-nos perceber que ia mesmo ser preciso alguma organização, e fazer algumas concessões em relação ao roteiro de Saramago que nos permitissem também incluir alguns locais que queríamos visitar e onde Saramago não parou ou esteve pouco tempo, assim como ter algum tempo extra para passeios pela Natureza. Também deu para perceber que esta não é uma viagem para fazermos num fim-de-semana ou num Verão, por isso vamos fazendo-a aos poucos. Esta primeira etapa foram oito dias, de 18 a 25 de fevereiro de 2023, do centro ao nordeste transmontano e de regresso. E foi um de nós que conduziu o caminho quase todo, o que, entre serras e estradas que nunca mais acabavam, nem sempre foi fácil.
«É preciso recomeçar a viagem. Sempre.»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Dia 1 — 18 de fevereiro, sábado
Percurso do dia: Coimbra.
Começámos por Coimbra, e num sábado, o que se revelou um pequeno erro de cálculo: estava quase tudo fechado. Bom para a cidade, se calhar, mas aborrecido para quem chega de fora a querer passear. Ficámos só uma noite. Deu para subir e descer as colinas todas (Coimbra não poupa as pernas a ninguém) e espreitar os jardins da Faculdade e o Jardim Botânico. Este foi a melhor surpresa do dia, maior e mais bonito do que esperávamos, ainda que um pouco ao abandono, e com uma vista bonita sobre a cidade. Apanhámos imensos autocarros a passar, coisa que, não sabemos bem porquê, nos surpreendeu, e até encontrámos algumas opções vegan. Não chegámos a entrar na biblioteca e ficou muita coisa por ver, mas era uma cidade simpática, e fica sempre uma desculpa para voltar. E, pelas paredes, muita arte urbana, que Coimbra tem aos montes. Ficámos com uma peça da Ninas, um coletor menstrual, e com uma frase pintada que merece ser levada por aí: «deixa a xoxota respirar».
Dia 2 — 19 de fevereiro, domingo
Percurso do dia: Figueira de Castelo Rodrigo, Vila Nova de Foz Côa.
O primeiro dia a sério de estrada, já com as primeiras amendoeiras em flor a aparecer pelo caminho.
Figueira de Castelo Rodrigo
«pelo arco que sustenta o coro, constituído por elementos de pedra em forma de S e considerado único no País.»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Parámos para almoçar e demos com um restaurante enorme, cheio de uma excursão, com meia dúzia de pessoas a servir, e ainda assim fomos rápidos. À saída, passámos por um campo cheio de amendoeiras em flor. Fomos também a um pequeno museu sobre uma batalha que, ao que percebemos, ajudou a manter Portugal independente de Espanha. Ficou por ver o castelo de Castelo Rodrigo, que era um bocado fora de mão.
Vila Nova de Foz Côa
De Foz Côa, na verdade, não chegámos a ver a vila: ficámos pelo museu do Côa, já ao fim do dia. As gravuras, lá em baixo no vale, ficaram para outra vez, porque eram longe e começava a fazer-se tarde, e não nos apetecia andar por ali pela noite dentro. Mas o vale do Côa, fundo e bonito, valeu bem a paragem.
Dia 3 — 20 de fevereiro, segunda-feira
Percurso do dia: Torre de Moncorvo, Vila Flor, Mazouco.
Foi um dia variado: uma vila que nos recebeu já de noite, uma igreja de que mal nos lembramos, e um desvio fora do mapa que quase nos deixou pelo caminho.
Torre de Moncorvo
«Quando o viajante entra em Torre de Moncorvo, já há muito tempo que é noite fechada»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Saramago entrou em Moncorvo de noite fechada, e connosco foi quase igual. Ainda era dia quando chegámos, mas escureceu tão depressa que já parecia noite. A vila está muito lá no alto, um bocado fora de tudo, e a primeira impressão foi, sejamos sinceros, um nadinha assustadora. Ficámos numa casa senhorial enorme que, à noite e meio vazia, parecia saída de uma telenovela antiga. Mal chegámos, demos de caras com uma figura bem conhecida da terra, à conversa com as poucas pessoas que ainda andavam na rua. Andámos um bom bocado à procura de um restaurante (havia uns bares de ar duvidoso e pouco mais) e acabámos a jantar uma sopa e umas moelas que estavam bem boas. Na manhã seguinte, já com a vila a outra luz, demos uma volta pelo Largo da Igreja, onde alguém se tinha dado ao trabalho de entrelaçar, uma a uma, todas as árvores.
Vila Flor
«o pórtico desta matriz do século XVII é digno de grandes atenções e demora suficiente»
— José Saramago, Viagem a Portugal
De Vila Flor, confessamos, ficou-nos pouco. A igreja grande no seu largo, com aquele pórtico que Saramago manda reparar, o caminho à entrada e a volta que lhe demos. Lembramo-nos de lá ter estado, e seguimos viagem. Há paragens assim, em que não acontece grande coisa e de que fica só a fotografia.
Mazouco
Fora da viagem de Saramago: as gravuras rupestres do Mazouco, o primeiro sítio de arte paleolítica ao ar livre identificado em Portugal, só foram descobertas em 1981, dois anos depois da sua passagem.
Mazouco não estava no roteiro de Saramago, nem podia estar: as gravuras rupestres só foram descobertas em 1981, dois anos depois de ele ter passado por aqui. Como não tínhamos descido ao Côa para ver as do parque, achámos que ficava mais ou menos a meio caminho e que valia o desvio. «Mais ou menos» é maneira de dizer, porque foi preciso descer um vale enorme por estradas duvidosas. Deixámos o carro no centro da aldeia (só um largo, casas antigas lado a lado com casarões renovados, e quase só gente mais velha na rua) e fizemos o resto a pé. A descida até à gravura, virada para o rio, era curta mas íngreme. A subida, com um calor impróprio de fevereiro (havia incêndios à volta e uma trovoada a ameaçar) e sem uma gota de água connosco, quase nos liquidou. Lá em cima, uns senhores acharam-nos meio malucos por termos descido a pé, e despediram-se de nós com laranjas de Mazouco, «as mais doces, não há outra laranja igual a esta». Tinham toda a razão, sabiam mesmo a outra coisa. Só nos ficou a pena de não termos trazido mais.
Dia 4 — 21 de fevereiro, terça-feira
Percurso do dia: Miranda do Douro, Sendim, Mogadouro, Vimioso.
Um dos dias preferidos. Acordámos em Miranda do Douro e passámos a manhã com os burros de Atenor, antes de seguir por Sendim, Mogadouro e Vimioso.
Miranda do Douro
«a escarpada parede é uma enorme pintura abstracta em diversos tons de amarelo, e nem apetece daqui sair enquanto houver luz»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Chegámos a Miranda já mais para o fim do dia, com frio. A cidade fica sobre o Douro, com a tal escarpa amarela que o Saramago descreve, hoje toda grafitada. O centro histórico é bonito e ainda tem alguma vida, embora os prédios de fora, mais novos, sejam uns quantos sem grande graça, como em tanta cidade portuguesa. Ficámos numa residencial com aquecimento no chão, um luxo inesperado para o frio que fazia. Foi também aqui que um de nós adoeceu, coisa que nos acompanhou nos dias seguintes.
Atenor
Fora da viagem de Saramago: o Centro de Valorização do Burro de Miranda (AEPGA), em Atenor, que acolhe e protege a raça asinina mirandesa.
Foi aqui que tivemos o momento preferido da viagem. Marcámos uma visita à AEPGA e passámos a manhã a fazer-lhes festas e a brincar com eles. Havia muitos, com nomes como o Dom Quixote e a Dulcineia, esta prenha, e até crias acabadas de nascer. São animais muito dóceis, e custou-nos vir embora.
Sendim
«este molho de vinagre que faz transpirar as maçãs do rosto e é cabal demonstração de que há uma felicidade do corpo»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Em Sendim fomos almoçar à Gabriela, um restaurante que descobrimos através do podcast Viagem a Portugal, de Fernando Alves, na TSF, que falava muito dele. A senhora que o tornou famoso já tinha falecido, mas a família manteve a casa e o espírito. Comemos uma posta mirandesa enorme, daquelas que nos deixam sem conseguir levantar da cadeira. Pesado, mas valeu cada garfada, e até assenta bem aqui aquilo que o Saramago diz sobre a felicidade do corpo.
Mogadouro
«do alto do castelo se podem deitar contas ao trabalho dos homens e das mulheres deste lugar»
— José Saramago, Viagem a Portugal
De Mogadouro guardámos sobretudo o castelo, lá no alto, sozinho sobre as terras, com umas poucas casas mais abaixo. Andámos à procura dele, subimos, e pouco mais. Não encontrámos ninguém, e a verdade é que não nos ficou muito além disto.
Vimioso
«sentado nos degraus que dão acesso ao adro, o viajante ouve contar uma história da história da construção do templo»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Vimioso era um nome que nos dizia alguma coisa e que queríamos conhecer mas, sendo sinceros, quase nada nos ficou dele. Mais uma terra pequena, com a sua igreja, onde parámos e seguimos.
Dia 5 — 22 de fevereiro, quarta-feira
Percurso do dia: Guadramil, Rio de Onor, Bragança.
Outro dos dias preferidos, agora a caminho do canto mais a nordeste de tudo, lá em cima na raia, antes de descer a Bragança.
Guadramil
Guadramil deve ter umas dez pessoas e, nesse dia, pareciam estar todas na rua: uns senhores a tratar dos carros, umas senhoras sentadas à porta. É um sítio que parece mesmo fora da civilização, com aquelas estradinhas de calçada e um riozinho a passar. Ficou-nos uma imagem de que ainda temos pena: uma senhora sentada a olhar para a água, do outro lado. Quisemos tirar-lhe uma fotografia, mas tivemos vergonha e não tirámos.
Rio de Onor
«Dobrou-se uma curva, aparece entre as árvores um luzeiro de água, ouve-se um restolhar líquido sobre as fragas, e depois há uma ponte de pedra.»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Rio de Onor é uma aldeia partida em duas pela fronteira: passa-se de Portugal para Espanha sem dar por isso, ainda dentro da mesma vila. O lado português, mais velho, tem as casas encostadas ao rio e uma ponte de pedra, como na curva que o Saramago descreve. O lado espanhol, logo ali, é mais moderno, e tinha farmácia e tudo, coisas que do lado de cá não havia. Não se via quase ninguém, só um café e umas hortas, mas percebia-se que ainda ali vive gente. Dá que pensar que, deste lado, a cidade mais próxima é Bragança, longe e difícil de alcançar.
Bragança
«desta encosta se vê Bragança. A tarde apaga-se rapidamente, o viajante vai cansado»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Bragança foi a maior cidade da viagem depois de Coimbra, e deu para sentir a diferença: tem universidade, passadiços ao longo do rio e, como Coimbra, colinas que não acabam. O Saramago também chegou aqui cansado, e percebemo-lo bem. Pela cidade demos com uma gineta, uma das esculturas de animais feitas de lixo do Bordalo II, e com o Centro de Fotografia Georges Dussaud, onde ficámos a namorar o livro Trás-os-Montes, cheio de fotografias antigas da região (andámos depois à procura dele, mas está quase todo esgotado). Para jantar, encontrámos o Batoque, um restaurante pequeno e escondido especializado em cogumelos, com pratos que davam para comer vegano, coisa rara por estas bandas. É também a terra dos caretos, embora os mais conhecidos, cheios de palha e cor, sejam de Podence; estávamos perto do Carnaval, mas não chegámos a apanhá-los.
Dia 6 — 23 de fevereiro, quinta-feira
Percurso do dia: Bragança, Vilaverdinho, Mirandela, Carrazedo de Montenegro, Chaves.
Um dia de muitos quilómetros e muitas paragens, a atravessar Trás-os-Montes de nordeste a noroeste, até Chaves.
Bragança
De manhã, antes de seguir viagem, fomos ao museu ferroviário de Bragança, um dos núcleos do Museu Ferroviário Nacional, instalado na estação, hoje sem comboios. Surpreendeu-nos: é grande e bem feito, melhor do que esperávamos para um sítio onde já não chega uma linha. Boa parte dele é sobre a luta da cidade para não perder o comboio, e para o voltar a ter. Não teve final feliz: ganhou, como quase sempre, a autoestrada.
Vilaverdinho
«em Vilaverdinho é que soube que a ideia das melhorias foi de um antigo ministro de Obras Públicas»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Vilaverdinho é fácil de alcançar, e confessamos que não percebemos logo porque é que o Saramago foi até lá, até nos lembrarmos de que andava à procura de uma capela. Nós chegámos, demos uma volta pela praça e saímos. Mais uma vez, não se via grande coisa nem ninguém.
Mirandela
De Mirandela há que confessar um pecado: passámos por lá e não comemos uma única alheira, o que é quase um crime. É já uma cidade maior, mas ficou-nos com um ar de subúrbio, de construção nova sem grande encanto, e foi, sinceramente, das paragens de que menos gostámos.
Carrazedo de Montenegro
«deu três passos e achou-se no coro alto, excelente ponto de vista para abarcar toda a nave»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Carrazedo de Montenegro foi uma surpresa. Conduzes quilómetros sem nada à volta e, de repente, chegas a uma terra bem maior do que esperavas, com prédios, casas novas, gente jovem e até indústria. Percebemos porquê: é uma espécie de capital da castanha. Não é propriamente bonita, mas tinha uma vida que não víamos havia vários sítios.
Chaves
«painéis de azulejos forram de alto a baixo a nave e são uma festa para os olhos»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Chaves deixou-nos com vontade de voltar. Comemos pastéis de Chaves, claro, e uma bôla, aquele pão recheado de carnes. A cidade tem uma ponte romana e muitos vestígios romanos e, mesmo no centro, por baixo de um parque de estacionamento, escondem-se umas termas romanas enormes. Pareceu-nos uma cidade boa para se viver, com vida dos dois lados do rio. É também o quilómetro zero da Estrada Nacional 2, e o primeiro sítio onde vimos o nome da cidade escrito naquelas letras grandes que agora há por todo o lado. A Nacional 2 chegou a ser o nosso plano, antes de a Viagem a Portugal nos levar por caminhos que ela não faz.
Dia 7 — 24 de fevereiro, sexta-feira
Percurso do dia: Chaves, Pedras Salgadas, Murça.
Manhã ainda em Chaves e depois para sul, com paragem nas termas de Pedras Salgadas e na Murça da famosa porca.
Pedras Salgadas
Fora da viagem de Saramago: a estância termal de Pedras Salgadas e o seu parque.
Pedras Salgadas não estava na viagem do Saramago mas, ao contrário do Mazouco, já cá podia estar: a exploração das águas começou em 1871, muito antes de ele passar. Hoje é um parque com spa e museu, mas já foi uma estância de elite, com casino e tudo, no início do século XX. A particularidade são as nascentes de água naturalmente gaseificada, raras, e em Pedras há várias (chegaram a contar-se oito). Antigamente, cada fonte servia para tratar uma maleita diferente, e havia até uma senha que dizia a cada visitante de que água podia beber e quantas vezes por dia. No museu ficámos a saber que a água era levada de carroça de bois até ao Douro, e dali seguia de barco, e que de um dos fundadores não há uma única fotografia, o que dá um certo mistério à coisa. O parque pode visitar-se à borla; só se paga o museu, ou para dormir nas casas na árvore.
Murça
«Ali está no largo principal, toda em costados e lombos, em presuntos inesgotáveis, fungando a quem passa»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Em Murça está a famosa porca, uma grande estátua de pedra no largo principal, que dá nome até a um vinho, o da Porca de Murça. Qual é a história da porca? Sinceramente, não fazemos ideia, e já a esquecemos. Se ficaram curiosos, fica o desafio: procurem. A terra tem alguma vida, com as suas cooperativas e gente na rua, ainda que estivesse um bocadinho vazia.
Dia 8 — 25 de fevereiro, sábado
Percurso do dia: Buçaco.
O último dia, já de regresso ao centro. Na véspera tínhamos descido até ao Luso, à chuva e de noite, por estradas estreitas e cheias de trânsito, uma viagem que não recordamos com saudade. O Saramago passou pelo Buçaco, mas não pelo Luso, onde nós ficámos.
Buçaco
«A mata do Buçaco requer as palavras todas, e, estando ditas elas, mostra como ficou tudo por dizer»
— José Saramago, Viagem a Portugal
Antes de entrar na mata, fomos beber água do Luso à fonte, mesmo ao lado do hotel, onde estava muita gente a encher garrafas. Sabe melhor ali do que engarrafada, garantimos. Depois fomos passear aos jardins do Buçaco, e o Saramago tem razão: aquela mata pede todas as palavras. Mesmo em fevereiro estava tudo muito verde, cheio de água e de mil verdes diferentes, e ainda demos uma boa caminhada lá pelo meio. Vimos também o Palácio do Buçaco, impressionante, hoje um hotel (caro, espreitámos os preços).
Epílogo
No fim, ficou-nos uma sensação agridoce. O Saramago, no livro, é recebido de braços abertos: mete conversa com toda a gente, e há sempre alguém para lhe contar uma história. Nós, passado todo este tempo, encontrámos sobretudo aldeias vazias. Muitos destes sítios estão hoje quase desertos, esvaziados pela emigração, e houve dias inteiros em que mal vimos uma alma na rua. As poucas vezes em que houve conversa a sério foram com os senhores do Mazouco e as suas laranjas, e talvez seja esse o nosso maior arrependimento: que não tenham aparecido mais histórias assim, daquelas que se contam depois. Se calhar a culpa também é nossa, que não somos os melhores a meter conversa com quem passa.
Mas, no geral, gostámos muito. Os acessos eram bem melhores do que esperávamos, e há uma beleza particular nesta parte mais raiana de Trás-os-Montes, vazia, que por vezes nos lembrou o Alentejo. Ficam os momentos preferidos: os burros de Atenor, as laranjas de Mazouco, Guadramil, Chaves. E fica a vontade de voltar, e de continuar a viagem.